14/09/2026
A Arashi nasceu de uma pretensão minha.
Eu queria mimetizar uma pincelada. A mesma que uso nas peças de porcelana da Hane, aquele traço de ouro líquido que passa pelas arestas da superfície cerâmica. Um caminho fluido, mas tortuoso.
Tentei trazer esse gesto pro metal. E no meio do processo, no acabamento, aconteceu um acidente. As facetas que você vê hoje, essa tridimensionalidade que reflete luz de um jeito imprevisível, são fruto desse acidente. Não foram planejadas.
Eu podia ter chamado aquilo de erro e corrigido na hora. Mas prefiro manter a mente aberta durante a criação. Prestar atenção no que acontece, não só no que eu planejei que acontecesse.
Só depois de pronta, olhando a peça, percebi a forma. Relâmpago. Trovão. Um elemento da natureza que carrega muita potência. Não escolhi essa força de propósito. Ela apareceu. Mas é algo que tento levar, mesmo que às vezes inconscientemente, pra todas as minhas criações.
Comecei a ler “O Ato Criativo”, do Rick Rubin, e lendo fiz algumas relações com essa história da coleção Arashi. Ele fala sobre como, assim que rotulamos alguma coisa, paramos de perceber e começamos a analisar. Foi mais ou menos isso que aconteceu com a Arashi. Se eu tivesse rotulado aquele acabamento como erro no primeiro segundo, teria corrigido e esse detalhe na peça não existiria. E, pra mim, esse detalhe é o que traz o maior diferencial dela.
Manter a mente aberta e desapegada é um exercício que tento praticar sempre que estou criando, mas ainda é desafiador.
Vocês já tentaram esse desapego na hora de criar? (E não estou falando só de arte. Rubin defende que somos todos criadores, em qualquer área da vida.)
Fotos do shooting da D-AURA